27 de abr de 2015

Em entrevista à Folha, o ex-senador José Sarney diz que prefere ser eternizado pela literatura do que pela política

Em entrevista ao caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, publicada nesta segunda-feira, o ex-senador e ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP), que também é ex-governador do Maranhão, declarou que depois da experiência política vai se dedicar quase que exclusivamente à literatura. Ele que, sexta-feira (24), completou 85 anos, disse que no momento trabalha em duas obras: suas memórias e seu quarto romance, "O Solar dos Tarquínios", que acabará "se Deus me der alguns anos de vida". Membro das academias de Letras do Maranhão (AML) e do Brasil (ABL), diz que prefere ser lembrado mais pelo literato do que pelo político. Ele frisou na entrevista que "há mais de 30 anos não nasce um grande romancista". Quanto a ele, paciência. "Quando o tempo afastar o político, o trabalhador das letras vai aparecer."
Na entrevista, ao ser indagado sobre uma frase de Jorge para quem "José Sarney é um escritor a quem o político José Sarney tem causado graves prejuízos", ele disse que “Napoleão (Bonaparte) dizia que política é destino, literatura, vocação. Eu me lembro da definição do Ernesto Sabato sobre literatura como antagonista da realidade. Mas a política tem dos dois. Teve a morte do Tancredo Neves [em 1985, antes de assumir a Presidência, abrindo espaço para ele, vice], em que a realidade imitou a ficção”. A repórter Para Anna Virgínia Balloussier, que entrevistou quis saber então se ele se arrependia de ter privilegiado mais a política do que a literatura, e ele respondeu: “Se Deus tivesse me perguntado se eu queria ficar com a literatura ou a política, teria escolhido a literatura. Não passou um dia sem que eu não tivesse um convite de noivado para a literatura. Calculo que passei 25% da vida lendo ou escrevendo. Não tenho nenhum outro hábito: não cultivo esporte, não costumo ir a cinema, teatro, não frequento restaurantes, não sou de dar recepções em casa”.
O ex-senador declarou ainda que está fase de revisão da sua autobiografia, que escreve desde 2003, cuja título é "Boa Noite, Presidente", frase que o general Leônidas Pires da Silveira teria pronunciado na noite de 14 de março de 1985, após a internação da Tancredos Neves, garantindo que ele seria empossado no dia seguinte. Sobre as duras críticas à sua obra, ele se defende: “É aquela história: não leram e não gostaram. Não conheço um grande crítico brasileiro que tenha feito críticas contrárias aos meus livros. Apenas deixei de cultivar a divulgação no Brasil porque havia má vontade. Não viam o escritor, viam o político”. E sobre os comentário de Millôr Fernandes à sua produção literária desdenhou: “Ele não era crítico literário, ele era humorista”.
Sobre o seu aniversário da semana passada, disse que “agora não comemoro mais nem o mês nem o ano, e sim os dias. Minha mãe, quando morreu, deixou uma carta. A primeira coisa que disse: "Tive até um filho que foi da Academia Brasileira de Letras". No Maranhão, quando se nasce, ninguém pensa em ser presidente, mas todos pensam em ir à Academia. As parteiras já conhecem o choro dos meninos: "Academiiiiiiia". Ninguém sabe, mas quando assumi a Presidência, atravessava um período de grande depressão.
Não passei pela crise dos 50 anos. Mas de repente, com 52, me surgiu essa depressão. Era uma cobrança que fazia a mim mesmo do que tinha feito da minha vida. O Carl Jung, ao contrário do Freud, dizia que todos morremos frustrados por não termos tido a vida que queríamos”.

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