13 de set de 2016

O poema Prefeitura sem Prefeito, de Patativa do Assaré, retrata a pura realidade de várias cidades maranhenses

Autor, dentre outros clássicos, de A Triste Partida, imortalizada na voz de Luiz Gonzaga, o poeta Patativa do Assaré fez um dos maiores protestos políticos em poesia de cordel, quando criticou o abandono político em que se encontrava a cidade de Assaré, na região do Cariri, no interior do Ceará, onde nasceu e viveu, sem nunca deixar de ser agricultor.

Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.

Esta poesia cabe muito bem para os dias de hoje em diversas cidades do Maranhão, bastando trocar o nome Assaré pelo da sua cidade para alguém enxergar a situação em que vive.

Prefeitura sem Prefeito

Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito.

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

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