29 de ago de 2018

No Jornal Nacional, mais uma vez Bolsonaro deita e rola com perguntas sobre temas que todos sabem as respostas

Quem assistiu à entrevista do candidato Jair Bolsonaro (PSL) na noite desta terça-feira (28), no Jornal Nacional da Rede Globo, ficou com a sensação de já ter visto aquilo, pois, mais uma vez, jornalistas que se dizem tão experientes optaram por explorar temas sobre os quais ele vem discorrendo, com muita propriedade e convicção, desde a pré-campanha e deitando e rolando com perguntas para as quais tem respostas que servem para assanhar mais ainda sua legião de apaixonados seguidores.

A grande novidade da noite foi a tentativa de exibir um livro de leitura infantil, que fazia parte do "Kit Gay", no qual crianças são ensinadas e estimuladas a serem gays ou lésbicas. O esforço foi para justificar sua postura considerada homofóbica, já que esses livros seriam para distribuição na rede pública de ensino e "nenhum pai que ver o filho brincando de boneca por influência da escola".

Quando os entrevistadores - William Bonner e Renata Vasconcelos - interviram para que não mostrasse as imagens contidas na publicação, o candidato reagiu com ironia: "mas é um livro infantil!". A dupla ficou desconsertada, pagando o preço de, ao longo de 27 minutos, puxar apenas assuntos que o Brasil inteiro conhece suas respostas: Ditadura Militar, homofobia, preconceito com a mulher no lugar de trabalho, enfrentamento da violência e ter recebido auxílio moradia, que é dada a todos os parlamentares, e outras, que foram feitas no Roda Viva, da TV Cultura; na Central das Eleições, na Globo News, e outros programas.

Para se defender das críticas por elogiar o governo militar, mais uma vez recorreu ao editoral do fundador da Rede Globo, Roberto Marinho, que em 1968 fez rasgados elogios à ditadura na primeira página do jornal O Globo e justificou o apoio de sua organização ao golpe, posição que somente nos anos 1990 foi retificada pelo jornal em editorial. Após ditar o trecho do artigo em que o jornalista e empresário defendeu os militares, Bolsonaro indagou, sem receber resposta convincente: "Roberto Marinho foi um ditador?"

Renata Vasconcelos até tentou passar uma reprimenda no entrevistado quando ele, para justificar o porquê de não poder interferir nas empresas que pagam para homens salários maiores do que para mulheres que exercem a mesma função, exemplificou o caso ali da mesa, onde estava um homem ganhando bem mais que sua companheira de bancada, e ela disse que pagava com seus impostos os salários de parlamentares, ao que ele, de chapa, emendou: os salários da Globo são pagos com verbas bilionárias recebidas do Governo Federal, e mais: os apresentadores recebem como pessoal jurídica e não física, e assim pagam menos impostos e não descontam para o FGTS.

Outra tolice foi querer constrangê-lo por pregar ação policial mais violenta que a dos bandidos no combate à criminalidade, pois todos sabem que ele, onde vai, prega para estes casos o uso pela polícia de fuzil se o bandido tiver um revólver; de metralhadora se ele tiver um fuzil; de tanque de guerra se ele tiver metralhadora, e por aí. "Primeiro atira e depois vai ver o que aconteceu", repetiu seu conceito de operação policial.

Resumindo, Bolsonaro pode até ter saído da entrevista sem aumentar seu percentual de intenções de votos que os institutos de pesquisa vêm lhe dando, mas, com certeza, perdeu quase nada com suas ideias, o que poderia ser diferente se fosse indagado, por exemplo, sobre o que pensa da reforma trabalhista, da reforma tributária, da reforma política, o papel do Brasil no Mercosul, relações internacionais, principalmente com países vizinho como é o caso da Venezuela e outros temas sobre os quais ainda não se conhece quase de suas ideias, o que torna sua candidatura uma incógnita ainda maior, pois os brasileiros não vão eleger um xerife, mas um gestor, e até agora todos que o entrevistaram não ajudaram o povo a descobrir quem é este homem que pode governar o Brasil a partir de janeiro de 2019.

Que venham as próximas entrevistas e os debates, mas com temas novos para se saber o que pensa o presidenciável Bolsonaro e não o ex-capitão do Exército!

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