24 de dez. de 2018

O ano que Papai Noel morreu para mim e nunca mais o 25 de dezembro teve a magia do Natal de minha infância


Resultado de imagem para Papai NoelTodos os anos, Papai Noel sempre encontrava um tempo na sua extensa agenda da noite de 24 de dezembro para ir até Pindaré-Mirim entregar algum presente para mim e a meus irmãos José e Terezinha, que são aqueles com quem sempre convivi. Não havia chaminé na nossa humilde moradia, mas ele dava um jeito de entrar, e colocava sob nossas redes o que julgava mais apropriado para nos recompensar pelo que fizemos ao longo do ano, em termos de obediência aos pais e aos mais velhos, dedicação escolar, assistir missas todos os domingos, não dizer palavrões e outras coisas, conforme os conceitos familiares da época, que faziam de uma criança um ser do bem.

Quando o dia amanhecia era aquela algazarra, que se estendia para a rua, já que outras casas também haviam sido visitadas na noite anterior e cada menino e menina saía com seus brinquedos para fazer a festa, sempre havendo um sentimento de competição e até mesmo de inveja quando se faziam as comparações entre este e aquele objeto. É claro que Papai Noel esquecia ou punia alguns, mas estes não ficavam fora das brincadeiras de Natal. Quem ganhava bola era obrigado a compartilhá-lhas com outros para que a partida de futebol se realizasse, alguns ajudavam a fazer estradas e pontes para os donos de carros passar com seus veículos de plásticos e as meninas organizavam suas casas para cuidar bem de suas bonecas.

Quando perguntávamos que horas o bom velhinho esteva na nossa casa, papai e mamãe sempre diziam que também não tinham visto, pois ele sempre dava um jeito de entrar sem ser notado.

Por não nos esquecer, Papai Noel era sempre admirado e amado, mas temido também, pois qualquer travessura era motivo de advertência para o risco de não merecer do velho de barbas brancas um presente no Natal seguinte.  Era este o segredo da magia da data em que se celebra o nascimento do salvador da humanidade, que sempre fica em segundo plano quando se trata de guardar o 25 de dezembro.

Para mim foi uma grande decepção, portanto, ter desmascarado Papai Noel e tirar da minha vida a fantasia alimentada por muitos anos. Devia estar contando meus seis anos, quando acordei e vi debaixo da minha rede e das de meus irmão três embrulhos. Sim, ele tinha estado lá em casa novamente. Dei um pulo da rede, rasguei o papel de presente e que decepção: não havia brinquedo, mas três cadernos, os mesmos que vi mamãe recebendo semanas antes na escola municipal por nós frequentada e que eram parte dos kits que o governo federal mandava distribuir para o ano letivo seguinte. Até a tarde do dia anterior, todos eles estavam sobre o guarda-roupas.

Chorei pela falta de presente, sem me dar conta de que aqueles cadernos eram mais importantes que um simples brinquedo. Não sei se o choro foi pelo que recebi ou por ter me dado conta que Papai Noel nunca existiu. E pior: saber que, pelo menos naquele ano, as coisas não iam muito bem para a nossa família em termos financeiros, pois não havia sobrado dinheiro para gastos desnecessários. Certo é que Papai Noel nunca mais foi à nossa casa, e o meu Natal nunca mais teve a magia de antes.

Anos depois, já na condição de pai, tentei alimentar este apego pelo bom velhinho com meus filhos, mas os tempos eram outros, e as crianças não tinham mais a inocência da minha época de infância. A influência da propaganda comercial pela televisão e a exposição de brinquedos nas lojas, coisas inimagináveis naquele distante início dos anos 1960 no interior do Maranhão, já antecipavam o que cada um queria ganhar, e quando eu podia eles sempre ganhavam. A única coisa que se manteve do Natal do passado foi a tradição de dar o presente somente na manhã do dia 25, mas sem Papai Noel.

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