22 de abr. de 2020

Roberto Fernandes se foi sem haver despedida e fica a impressão de que ainda continua fisicamente entre nós

A morte do jornalista e radialista Roberto Fernandes é algo tão difícil de acreditar, ainda mais por não ter havido testemunho de seu corpo sendo velado, que fica a sensação de que continua fisicamente entre nós e a qualquer momento entrará em nossas casas, em nossos carros, em nossos celulares para nos falar sobre as novidades do dia, mandar suas mensagens de otimismo, enfim de nos manter com a mente ocupada por toda a manhã, e falava de tudo, pois os ouvintes às vezes eram impiedosos e pediam que comentasse até mesmo aquilo que admitia não dominar.

Falo de Roberto Fernandes sem medo de ser taxado como um desses que só sabem enxergar virtudes nos mortos. Nos conhecemos ainda nos bancos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão.

Recordo do novo primeiro encontro:

Ele havia chegado para seu primeiro dia de aula, embora estas já tivessem iniciado há alguns dias. Trajando calça jeans, chinelos de couro cru (bolsa a tira colo idem) e um blusão colorido. Era um típico cidadão contestador naquele período em que o regime militar já dava sinais de agonia, mas mantinha-se acesa chama de derrotá-lo e fazer o Brasil prosperar na democracia.

Naquela tarde, um professor faltou (incrível como passado um longo período de férias ainda fosse possível alguém carecer de mais descanso) e ele foi à frente da sala e sugeriu que no lugar da aula fizéssemos um debate sobre aquilo que ele mais gostava: política. Foi o momento em que todos nós  começamos a nos conhecer melhor cada um sobre suas idéias de mundo, como vivia, o que esperava da profissão etc. Eu como sempre atrapalhado em minha esquerdice.

Passada a fase universitária, cada seguiu seu destino: ele se firmando mais ainda no Rádio e depois na TV e eu martelando máquinas de datilografia e depois computadores nas redações de jornais, depois assessorias de comunicação, e por aí seguindo, abrindo passagens, buscando meu lugar sob o Sol.

Sempre nutrimos um pelo outro, mais do que amizade, respeito. Nunca esqueço de quando foi exageradamente maltratado pelos "ideólogos de esquerda" pela decisão de deixar a Rádio Educadora pela Rádio Mirante. Houve quem classificasse isto como traição, porque estava saindo da emissora que "defendia  o povo" para trabalhar para "oligarquia", isto porque sua nova casa pertence a Família Sarney. Cheguei a ter um debate ríspido com o parente de uma importante autoridade quando perguntou minha opinião sobre isto e indaguei o que a esquerda tinha feito por ele esse tempo todo.

Ultimamente nossos encontros se resumiam à sua entrada em minha cada todas as manhãs, pela tela da TV, e no carro, pelas onda da emissora em que trabalhava. Nossas conversas eram mais por whatsaap, e quase sempre assuntos de trabalho, até porque não éramos amigos tão próximos a ponto de um visitar a casa do outro, tampouco sermos chamados para confraternizações familiares,

Desde que foi anunciada sua enfermidade, confesso que não me preocupei, pois achava que sairia bem desta, mas o silêncio sobre seu quadro foi me preocupando, até que veio a notícia do falecimento. E que momento triste para se morrer, pois nem despedida pode haver. Infelizmente foi assim.

Fica a saudade, a lembrança de tudo o que representou na Comunicação Social, no esporte, na vida de muitos maranhense.

(Com foto do Quarto Poder)

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