27 de mar. de 2021

Ficar em casa não é tão fácil, portanto agradeça a quem não pode, pois você pode estar lhe devendo a sua vida


Em muitos lares do Maranhão, por mais que pudessem, famílias não têm como ficar em casa















Há um entendimento geral, quase unânime, nas comunidades médica e científica, de que o isolamento social é a maior e melhor arma contra o covid-19, pois seria a maneira de evitar sua proliferação, já que haveria menos contatos de pessoas. Com base nesse princípio, o discurso do "fique em casa" ganha mais força, principalmente entre políticos e palpiteiros das redes sociais que hoje se encontram numa situação confortável e podem adotar esse modo de vida, e por serem assim, acham que a regra pode ser adotada horizontalmente.

Quem mora numa cidade como São Luís pode fazer um exercício mental para saber até onde o "fique casa" pode ser seguido à risca para diminuir o número de pessoas circulando para não haver aglomerações, observando uma foto aérea da zona compreendida entre os bairros do Renascença, Calhau, Ponta d´Areia e São Francisco (quem vive em outras cidades pode ter por base a parte mais vertical de onde mora), pois a quantidade de prédios - residenciais e comerciais - pode ser um indicador de quantas pessoas precisam sair de casa todos os dias.

Imagine, leitor, quantas pessoas trabalham diariamente, dia e noite, nessas edificações. E não se fala aqui somente de advogados, contadores, médicos, dentistas, psicólogos e outros profissionais que ocupam salas nos prédios comerciais, mas de porteiros, piscineiros, jardineiros, zeladores e outros que trabalham nos condomínios residenciais, pois são estes que se submetem a riscos de contaminação, em ônibus, vans ou mesmo a pé, para ir e vir do trabalho, a fim de garantir conforto e segurança de quem pode ficar em casa porque, além do salário garantido na conta todo final de mês, pode fazer quase tudo pelo computador ou um smartphone.

Nestas edificações, muita gente que não pode ficar em
casa, trabalha para garantir segurança dos habitantes
 

Além destes trabalhadores, para ficar em casa, quem pode não prescinde de outros que desempenham suas atividades: motoristas e cobradores de ônibus, caixas de supermercados, padeiros, frentistas de postos de combustíveis, açougueiros, feirantes, caminhoneiros, entregadores de refeições e tantos outros que saem de casa, expõem-se a riscos e depois voltam para o convívio familiar sem a certeza de que retornou sadio ou não.

É importante verificar também a pressão que se exerce contra quem, para ficar em casa, tem de dividir com todos os membros da família, o único cômodo existente na casa. Imagine passar meio dia nesta condição!

O argumento não é para se contrapor ao que diz a Ciência e a Medicina, mas pedir um pouco mais de tolerância dos que se acham no direito de censurar e ser tão rude em seus xingamentos contra quem, sabe-se lá por quais dessas razões, não consegue ficar em casa. Resumindo: não é porque alguém pode, que todos podem. 

Fica compreendido, portanto que o discurso do "fique em casa" não pode ser tão radical, deve ser o de "se puder e quando puder fique em casa", seguido de um agradecimento: "muito obrigado a você que está arriscando sua vida para que eu possa ficar em casa, pois devo estar lhe devendo minha vida"


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