1 de abr. de 2021

A imprensa brasileira está se deixando pautar por muitos políticos inexpressivos que confundem soluço com arroto

LEIA MARANHÃO HOJE



A imprensa brasileira, de tantas tradições, que já revelou importantes nomes para a intelectualidade nacional, vem nos últimos anos se deixando apequenar por vir sendo pautada por políticos inexpressivos, sem conteúdo, mas que conseguem manobrar por meio de suas assessorias, espaços para vomitar bobagens, pregar caos, num complemento desconhecimento das leis, da Constituição e das tradições da vida pública nacional. Não se trata de apenas ignorância, mas de vocação, para que os fatos se pareçam com o pensamento de quem tem as suas rédeas.

São tantos os exemplos, mas alguns bastam para exemplificar essa afirmação, tão triste de ser constatada.

Há poucos dias, numa sessão do Senado, um assessor do Itamaraty foi acusado de fazer um gesto obsceno, de caráter homofóbico, enquanto o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, discursava. O gesto seria aquele que muitos usam para duvidar da masculinidade de um homem. Mas, afinal, a quem ele estaria se referindo? 

Depois de muito analisarem o gesto, que ele jura ser apenas para ajeitar a lapela do terno, chegou-se à conclusão que a junção dos dedos polegar e indicador não formava um orifício, portanto estava descaracterizada a homofobia, e passou-se então a interpretar aquilo como uma saudação nazista.

Um professor especializados na linguagem dos sinais foi levado a uma emissora de TV e não teve dúvida: três dedos formavam a letra W, de White (branco em Inglês), e a junção das pontas do polegar e do indicador não era um orifício, mas um P, de Premium, caracterizando-se, assim, uma pregação de supremacia branca, como faziam os seguidores de Hitler. 

O problema é que o autor gesto é judeu, portanto não poderia (pelo menos não deveria) fazer pregações nazistas, portanto o caso passou para disse-me-disse e ninguém mais tocou no assunto.

Um senador da República, provavelmente o descobridor do atentado e autor da denúncia aos meios de imprensa, num discurso afetado, gravou mensagem que várias emissoras de TV, sites e blogs repercutiram, além das redes sociais: "Não sei que gesto era aquele, mas que foi ofensivo foi", disse ele. 

Impressionante: a pessoa não sabe que mensagem foi passada pelas mãos do assessor do Itamaraty, porém não tem menor dúvida de que ele ofendeu o Poder Legislativo.

Não estranha se descobrir no Brasil um judeu com inclinação nazista. Afinal de contas, o presidente da República, todos os dias, é chamado de nazista, mas mantém estreitas relações com Israel, e quem o chama de nazista é simpatizante das causas de quem prega o fim do Estado de Israel e o banimento, da face da Terra, do povo judeu. Que coisa!

Pois bem, como este episódio entrou para a lista de muitas outras pautas ridículas, veio, na terça-feira (30), a ameaça de um golpe militar. 

Os mais afamados comentaristas da grande imprensa nacional não tiveram dúvida em identificar um golpe em marcha porque houve troca de ministro da Defesa (os outros cinco não contaram) e o que entrou trocou os comandos das Forças Armadas. Vários políticos foram ouvidos para tratar disso, os mesmo desmiolados que pautam a grande imprensa. Isto tudo se deu às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964, que uns preferem chamar de "movimento" e outros, "revolução". O 31 de março, no entanto, amanheceu, entardeceu e anoiteceu, e nada de golpe!

A frustração não impede, porém, que alguns comunicadores, dando a si mais importância do que têm, em vez de repararem seus erros, atribuem à cobertura dos seus veículos a esses acontecimentos e às interpretações que deram como base em depoimentos de "fontes confiáveis" como ações que salvaram a democracia brasileira, pois os golpistas tremeram e recuaram. Minha Nossa Senhora!

Apesar de tudo isso, o novo ministro da Defesa ainda terá de ir ao Congresso Nacional explicar por que trocou os três comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A resposta é tão simples e tão óbvia que bastaria lembrar que foi pelas mesmas razões que teve o deputado Arthur Lira ao assumir a Presidência da Câmara. No seu primeiro ato, tornou sem efeito uma medida do antecessor e no dia seguinte trocou todos os chefes de setores, ou seja, a mesma coisa que faz o presidente da CBF ao trocar a comissão técnica da Seleção Brasileira ou um presidente de clube de futebol ao mandar o técnico embora: quer gente da sua confiança.

A melhor definição de tudo isto foi dada nesta quinta-feira (1º) pelo general Etchegoyen, do Rio Grande do Sul, numa entrevista à Jovem Pan. Para ele, é incompreensível como, passados 26 anos da redemocratização do Brasil, alguns setores da política nacional e da imprensa, ainda se assustam como um soluço, como se fosse um brado de rebeldia. Disse mais: enquanto nos quarteis há a convicção de que a democracia brasileira está sólida, do lado civil vêm as incitações para que os militares subvertam a ordem. Dá para entender?

Por essas e outras é que nas pesquisas de opinião pública, quando se pede para os entrevistadores darem seu votos de confiança aos meios de comunicação, a imprensa sempre fica com menos de 10%. 

Saudades dos tempos de bom jornalismo!


2 comentários:

Gusmão disse...

Verdade estamos a deriva em se tratando de jornalismo correto

Unknown disse...

Bem observado